O passo do adeus

•21/01/2012 • Deixe um comentário

 

J.Bosch, in O Jardim das delícias

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Amor, hoje teu nome

a meus lábios escapou

como ao pé o último degrau…

 

Espalhou-se a água da vida

e toda a longa escada

é para recomeçar.

 

Desbaratei-te, amor, com palavras.

 

Escuro mel que cheiras

nos diáfanos vasos

sob mil e seiscentos anos de lava ___

 

Hei-de reconhecer-te pelo imortal silêncio.

 

by

Cristina Campo, in O Passo do Adeus

 

 

Os números de 2011 ´- Uma bela surpresa do WordPress!!

•01/01/2012 • Deixe um comentário

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

 

Aqui está um resumo:

A sala de concertos da Ópera de Sydney tem uma capacidade de 2.700 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 11.000 vezes em 2011. Se fosse a sala de concertos, eram precisos 4 concertos egostados para sentar essas pessoas todas.

Clique aqui para ver o relatório completo

Fim do mundo

•20/11/2011 • Deixe um comentário

 

 

 

 

 

Teus são meus olhos baços e
As elegias de meus cansaços

Atravessas minhas noites como um verso
como o vento que corre no campo
e lamenta os carvalhos

Curvam-se os sonhos
E  chaves secretas trancam minha alma para sempre.
aproxima-se a ultima estrela e
Tu te moves dentro de mim,
Imortal fantasma,
a compartilhar o buraco fundo,
onde acaba o mundo.

by

Anna Montenegro

Ontem

•13/11/2011 • Deixe um comentário

 

Na minha silenciosa batalha contra o nada, te encontro.
Sons distantes da noite te embalam
Em minha alma que balouça platônica e suspensa
Como a lua minguante de ontem.

Te encontro nessa paisagem baldia
Quando os cães ladram,
Nao dei se de temor ou nostalgia.

Decifram-te noturnos cansaços
e o generoso flanco da noite
te acolhe inteiro
e perdido

Comove-me tua figura desfeita
de teu ultimo dia
cruzando nossa manhã
trazendo as folhas secas.

Diante desses tantos dias
Abre-se a morte
finda-se a vida
Um gemido soou nas profundezas
e um eco do que fomos
acorda o ar.

by
Anna Montenegro

Canto

•10/09/2011 • 1 Comentário

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que doi é saber  que nao veremos as gaivotas sobre o mar,
Nem teremos os olhos ofuscados pela brancura das ondas que te trouxeram
e hoje te levam para o improvavel sonho da eternidade.
E assim se  desmancha a tarde opaca entre a saudade e a amargura
O céu se despe de azul e empurra as horas frias
Tu te  aderes  a minha pele
Reverberando  o calor antigo
E eu peço aos deuses, ao menos, o teu fantasma,
para nao enlouquecer ante tuas cinzas.

by

Anna Montenegro

Brisa Marinha

•19/07/2011 • Deixe um comentário

 

Jackson Pollock, in The Tea Cup

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.
Fugir! Fugir! Sinto que os pássaros são livres,
Ébrios de se entregar à espuma e aos céus
                                              [ imensos.
Nada, nem os jardins dentro do olhar suspensos,
Impede o coração  de submergir no mar
Ó noites! nem a luz deserta a iluminar
Este papel vazio com seu branco anseio,
Nem a jovem mulher que preme o filho ao seio.
Eu partirei! Vapor a balouçar nas vagas,
Ergue a âncora em prol das mais estranhas
                                              [ plagas!

Um Tédio, desolado por cruéis silêncios,
Ainda crê no derradeiro adeus dos lenços!
E é possível que os mastros, entre ondas más,
Rompam-se ao vento sobre os náufragos, sem
                                              [ mas-
Tros, sem mastros, nem ilhas férteis a vogar…
Mas, ó meu peito, ouve a canção que vem do
                                              [ mar!

 

by

 

Stéphane Mallarmé

(Traduçao: Augusto de Campos)

 


 

Ser mulher

•09/03/2011 • Deixe um comentário

 

Klint

 

Sofremos porque  vivemos a-simbolicamente! Não temos um significante, um símbolo que dê conta de representar e dizer o que é ser mulher.
 Neste   território inominável e movediço, buscamos um  signo que dê conta do que é ser uma mulher, e  encontramos signos que nos escapam. Somos um receptáculo: nosso modo de nos  deixar penetrar  é o nosso modo de se relacionar com as coisas. Nesse campo aberto a voragem do mundo nos devora…
Há algo em nós que não se inscreve na ordem da linguagem. Nela escorregamos,  tentamos agarrá-la mas…ela, a linguagem,  sempre escapa….e caímos no vão dilacerado da cadeia significante…
 
A arte é uma experiência que  permite com que possamos deslocar ou dissolver o peso da existência: construir e vivenciar um certo contorno permite um pouco quietude.
Fechar os olhos e meditar, orar é mergulhar para dentro de si para desenvolver o olhar interior e encontrar um campo sereno. Desligar-se do mundo.Não deixar o mundo nos engolir…é o que nos salva!
 
Queremos sempre ser aquilo que falta ao Outro ( grande Outro lacaniano). Mas não conseguimos e sofremos porque  exigimos demais de nós mesmas.
 
Temos que dançar, dançar…para experimentarmos a perda do peso da existência.
Cantar, cantar e marcar presença através das pulsações rítmicas e melódicas. A música neste sentido acaba fazendo sua assinatura dentro de nós….e acreditem,  ela coloca uma certa ordem no caos pulsional.
 
Viver cansa, dá enjôo ( como dizia Fernando Pessoa).
Mas o encantamento ( essa poção mágica que sustenta a existência) sempre aparece: no olhar de nosso cão, quando tocamos  piano, quando dançamos, quando lemos  um poema, quando vemos o despertar dos nossos alunos, quando estamos  nos braços de nosso amor.
Somos uma explosão de emoções. É difícil para os homens compreenderem todas estas emoções!
A lógica deles é aristotélica: ou é ou não é.
A nossa lógica é: aquilo que é pode não ser.
(…)

 by

Deise Rossi

Um anjo

•15/02/2011 • Deixe um comentário

 

Um anjo vem todas as noites:

senta-se ao pé de mim, e passa sobre meu coraçao a asa mansa,

como se fosse meu melhor amigo.

Esse fantasma que chega e me abraça

(asas cobrindo a ferida do flanco)

é todo amor que resta

entre ti e mim, e está comigo.

by

 Lya Luft

In memorian

•11/02/2011 • 2 Comentários

 

Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um

- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum

by

Eugenio de Andrade

Desci um milhao de escadas

•04/02/2011 • Deixe um comentário

 

Fotografia: Joao Viegas

Desci um milhão de escadas

Desci, dando-te o braço, ao menos um milhão de escadas
e agora que aqui não estás é o vazio a cada degrau.
Mesmo assim foi breve nossa longa viagem.
A minha dura ainda, mas já não me ocorre pensar
nas conexões, nas reservas,
nas ciladas, nos vexames dos que crêem
que a realidade é aquilo que se vê.

Desci milhões de escadas dando-te o braço
e não porque com quatro olhos talvez se veja melhor.
Contigo as desci porque sabia que de nós dois
as únicas verdadeiras pupilas, ainda que tão ofuscadas,
eram as tuas.

by

Eugenio Montale

A curva do rio

•08/10/2010 • 2 Comentários

 

 

Desces a curva do meu corpo, amado
com o sabor da curva de outros rios
contas as veias e deixas as mãos pousarem
como asas
como vento
sobre o sopro cansado
sobre o seio desperto

Parte a canoa e rasga a rede
tens sede de outros rios
olhos de peixe que não conheço
e dedos que sentem em mim a pele arrepiada
d’outro tempo
 

 

Sou a esperança cansada da vida
que bebes devagar
no corpo que era meu
e já perdeste
andas em círculos de fogo
à volta do meu cercado
Não entres, por favor não entres
sem os óleos puros do começo
e as laranjas.

by

Paula Tavares

in Dizes-me coisas amargas como os frutos

Administrar o inutil

•21/07/2010 • 1 Comentário
 



Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil.Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.

Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral.by

Manoel de Barros

VI Canto

•17/06/2010 • Deixe um comentário
Eu caminho tao levemente e imperceptivel, que nao podes notar os fardos ,
nem os dardos que carrego.
Meu olhar sao dois passaros engaiolados, cobiçosos do azul
que olham através de ti
a exaltaçao da máquina do mundo.
Entre as frestas das estrelas, pausas de melancolia,
toda angustia é vaidade,
como nas cartas de Eclesiastes.
Tu passas ao longe, e nao me advinhas,
como uma grega coluna, imóvel , intocável,
observas minhas mágoas discretas,
nao te inclinas, mas olvidas.
Minha loucura é como a freirinha coquete,
que há pouco sorria  - talvez – da vida.
E eu que tomei por espada o riso,
choro, – talvez- pela vida.
by
Anna Montenegro

O Livro das Horas

•14/06/2010 • Deixe um comentário

Salvador Dali

Aqui, diante de mim,

eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
das virtudes teologais,
que são três,e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
e o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!

by

Miguel Torga

Viuvez

•09/06/2010 • Deixe um comentário

 

 

Foto de Giovani OrlandiFoto de Giovani Orlandi

No setimo ano da morte de José, exatamente às nove horas da noite, Maria olhou o mesmo relógio que lhe desmanchava os dias e corroia as entranhas.Uma nova mulher velha sentava-se à mesa e comia salsichas.Mitigava o tempo, mastigava o alimento.O que haveria depois da lucidez senao a memória diáfana que tornava-se mais clara a cada dia? Capitaneava os pedaços  do pao que misturados aos pensamentos precisavam ser digeridos,engolia-os a  seco.

Era essa a vida.

Sem final, afinal.

by

Anna Montenegro

ENCOSTAS A FACE…

•09/06/2010 • Deixe um comentário


Encostas a face à melancolia e nem sequer
ouves o rouxinol. Ou é a cotovia?
Suportas mal o ar, dividido
entre a fidelidade que deves

à terra de tua mãe e ao quase branco
azul onde a ave se perde.
A música, chamemos-lhe assim,
foi sempre a tua ferida, mas também

foi sobre as dunas a exaltação.
Não ouças o rouxinol. Ou a cotovia.
É dentro de ti
que toda a música é ave.

by

Eugenio de Andrade

PAUSAS II

•08/06/2010 • Deixe um comentário


NÃO CANTA o grilo. Ritma

a música

de uma estrela.

Mede

as pausas luminosas

com sua ampulheta.

Traça

suas órbitas de ouro

na desolação etérea.

O povo honesto pensa

— no entanto —

que canta uma caixa

de música na grama.

by

Jose Gorotstiza

1925

Pobre Velha Musica!

•23/05/2010 • Deixe um comentário


Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.

Recordo outro ouvir-te,
Não sei se te ouvi
Nessa minha infância
Que me lembra em ti.

Com que ânsia tão raiva
Quero aquele outrora!
E eu era feliz? Não sei:
Fui-o outrora agora.

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro

“A Correspondência”

•16/05/2010 • Deixe um comentário


w.artehistoria.com El primer arte de la Humanidad aparece en la etapa de la historia llamada Paleolítico Superior, que comprende entre los 30.000 y los 8.000 años aC, en números redondos. En esos

(….)

Escrevemos nossas cartas para habitarmos juntos, tanto quanto pudermos, apesar da separação, apesar do espaço, o pouco tempo que nos é dado em comum, para compartilhar alguma coisa, um acontecimento, ou um pensamento, uma emoção ou um sorriso, muitas vezes quase nada e esse é o essencial de nossas vidas, para compartilhar essa pobreza que somos, que vivemos, que nos faz e desfaz, antes que a morte nos pegue, para não renunciar, enquanto respiramos e sejam quais forem os quilômetros que nos separam, à doçura de viver juntos, em todo caso ao mesmo tempo, à doçura de compartilhar e de amar. Contemporâneos da mesma eternidade, que é hoje. Passantes da mesma passagem, que é o mundo.

(…)

A escrita nasce da impossibilidade da fala, de sua dificuldade, de seus limites, de seu fracasso.

Por que escrever quando se pode falar-se, quando se fala efetivamente? Porque nem sempre se pode falar, nem de tudo, porque a fala pode criar obstáculo para a comunicação, por vezes, ou condená-la à tagarelice, porque é preciso ter tempo de ficar sozinho, porque é doce pensar no outro em sua ausência, ainda que se deva vê-lo no dia seguinte, dizer-lhe o lugar que ocupa em nossa vida, mesmo quando ele não está presente, em nosso coração, em nossa solidão.

Nossas cartas se parecem conosco, desde que o queiramos um pouco, e mesmo, às vezes, quando não o queremos. Frágeis como nós. Irrisórias como nós. Bela por vezes. Pobres e preciosas, corriqueiras e singulares, quase sempre. Um pouco de nossa alma introduziu-se ali, na pouca espessura de um envelope. Um pouco de nossa vida, na loucura do mundo. Um pouco do nosso amor, no deserto das cidades.

Por que se escreve uma carta? para habitarmos juntos a essencial solidão, a essencial separação, a essencial e comum fragilidade. Para descrever o tempo que está fazendo, o tempo que está passando. Para contar o que nos tornamos, o que somos, o que esperamos. Para exprimir a distância, sem a suprimir. O silêncio, sem o corromper. O eu, sem se fechar nele.

by

André Comte-Sponville, Bom Dia, Angústia!, do ensaio “A Correspondência”, pp. 35-44.

Coisas, Pequenas Coisas

•16/03/2010 • Deixe um comentário

Desenho de Samanta Floor, uma garotinha de P.Alegre

Fazer das coisas fracas um poema.

Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.

Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.

by

Fernando Namora, in “Mar de Sargaços”

 
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