•07/11/2009 • Deixe um comentário

A35ab

E havia as grandes noites
Os grilos inquietos nas paredes gastas
Uma paisagem imaginaria sob os lampioes
Um cheiro de flor e de compotas
Uma esperança baldia
Aguardando o futuro.

Havia as grandes chuvas
chávenas fumegantes
toalhas bordadas de azul
a fruta madura
na economica mesa
alimentando o presente

Havia o pio do pássaro preso
o canto da mulher que enlouquecia
as cartas nunca enviadas
as carícias nunca recebidas
Eram ecos do passado
passageiro fugaz
no pêndulo do relógio.

E havia o grande dia.
Que nunca foi servido.

by
Anna Montenegro

Solidão

•19/10/2009 • Deixe um comentário

Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou

Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna

Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo

by
Mia Couto, in “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”

A bela de Amherst

•17/10/2009 • Deixe um comentário

245

Tive uma jóia nos meus dedos —
E adormeci —
Quente era o dia, tédio os ventos —
“É minha”, eu disse —

Acordo — e os meus honestos dedos
(Foi-se a Gema) censuro —
Uma saudade de Ametista
É o que eu possuo —

by
Emily Dickinson
Tradução: Augusto de Campos

Adágio

•15/10/2009 • Deixe um comentário

Acreditas que a poesia nasce de claridades e clarividências?
Engana-te.
A poesia brota das sombras, dos sussurros, das imagens ocultas nos jardins sem flores.
Nos vãos emparedados, sob palavras que se apóiam uma às outras
Depois de exalados perfumes discretos, como as lembranças daquilo que não se viveu.

A poesia se oculta atrás de portas fechadas, ante a veneziana que aprisiona o sol em reflexos de renda.
Na chuva noturna que forma orvalhos frios nos brotos da hera,
No vento que engravida a cortina
Com polém secreto

Engana-te se procuras a poesia em dias felizes
Passageira de um comboio perdido,
Num vagão de terceira classe
Viaja para a terra não prometida.
Altiva desembarca em estações sem passageiros
senão tu.

by
Anna Montenegro

Credo da inquietude

•13/10/2009 • Deixe um comentário

Se por acaso eu chegasse um dia à Terra Prometida, que faria depois?

Se eu lesse, relesse, treslesse todos os livros, leria o quê?

Se eu erguesse minha casa e dissesse: – Satisfaz! – com que haveria de me distrair?

Se fosse suficiente erguer o braço para obter o que preciso, como passaria o tempo?

Se me sentisse irmão de meus iguais e desiguais, onde acharia meu inimigo?

Se o que eu buscasse estivesse onde estou, procuraria o quê?

Se o meu mundo ficasse pronto, que haveria para modificar e melhorar?

Perdoe-me Deus, mas se todos esses ses acontecessem, eu ficaria cansado, cansadíssimo de não ter que inventar mais nada.

E talvez desistisse de viver.

Réplica de Deus

Contumaz criatura. Por todos os meios tentei salvá-la de suas próprias artimanhas. Dei-lhe um olhar luminoso e a faculdade de perceber-se e perceber o mundo. Concedi-lhe o livre arbítrio de escolher entre ser espelho de Meu opus perfeito ou motor de si mesma, na construção de uma obra que exclui o resto e só leva ao desastre. Ela preferiu sua própria Torre de Babel. Compraz-se em seus escuros labirintos e imita-Me na criação de mundos paralelos. Reincide. Várias vezes submergiu em cataclismas auto-infringidos. E sempre recomeçou arrogante e dominadora. O resultado é o que aí está: desequilíbrios mortais, desarmonias sem remédio, gritos plangentes e queixas lancinantes que surgem de todos os quadrantes do orbe. E agora, também dos espaços siderais.

A cada vez, quando ela tenta consertar-se já é tarde demais.

O fim se conduz a si mesmo. Não interfiro. Mas até quando?

Meus acessores sugerem uma reversão à pura condição de animal sem consciência, com uma bússola instalada no coração em vez do livre-arbítrio no cérebro. Mas eu teria de inventar um novo espelho, a não ser que Me conformasse, em definitivo, com a condição de artista anônimo.

Nesse caso, ninguém usufruiria de Minha obra-prima.
by
Per Johns

Antologia

•28/09/2009 • Deixe um comentário


Edward Munch, in Melancolia

Como morrer se existe o mar,
Se o Tejo canta tristemente para os barcos
E chama as andorinhas

Como adiar esse encontro inesperado
e desesperado e
pedir para ficar um pouco mais

enquanto as nuvens vem e
e desenham figuras em seus desvaõs
a maresia,
o buliço
acendem lanternas
no coração.

como morrer
e esquecer o pássaro azul
desavisado hospede
de um céu impálpável

vontade de ser barqueiro
e fazer voltar as almas
do Hades
devolver o ardor da terra
e a existencia do mar

como morrer
e levar muda
essa antologia de espanto.

by
Anna Montenegro

•21/09/2009 • Deixe um comentário
René Magritte

René Magritte

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões

E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos – digo,

As mulheres – ainda que as casas apresentem os telhados inclinados

Ao peso dos pássaros que se abrigam

É à janela dos filhos que as mulheres respiram

Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas

Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens

Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram

Nos ramos – no pescoço das mães – ainda que as árvores irradiem

Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro

E geram continuamente. Transformam-se em pomares.

Elas arrumam a casa

Elas põem a mesa

Ao redor do coração.

by
Daniel Faria

Somos todos poetas

•10/09/2009 • 1 Comentário

André Breton, in Untitled

André Breton, in Untitled

Me colaram no tempo, me puseram
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.

Me vejo numa nebulosa, rodando sou um fluído,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregaram numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamento,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações…
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.
Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.

Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”. ..
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito.
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.
by
Murilo Mendes

Escreveu aos 24 anos, na publicação Antropofagia

•05/09/2009 • Deixe um comentário

Fragmentos de um discurso amoroso”

 

Encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas centenas, amo apenas um. O outro pelo qual estou apaixonado me designa a especialidade do meu desejo. (…) Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que eu encontre a Imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis um grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo Esse? Por que o desejo por tanto tempo, languidamente?… “

by Roland Barthes

•04/09/2009 • Deixe um comentário

Um lugar no coração

há um lugar no coração que
nunca será preenchido

um espaço

e mesmo nos
melhores momentos
e
nos melhores
tempos

nós saberemos

nós saberemos
mais que
nunca

há um lugar no coração que
nunca será preenchido

e

nós iremos esperar
e
esperar

nesse
lugar.

by
Charles Bukowski

•28/08/2009 • Deixe um comentário

Plano

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

by

Nuno Judice

 

•19/08/2009 • Deixe um comentário

Dor, dor de minha alma, é madrugada

E aportam-me lembranças de quem amo.

E dobram sonhos na mal-estrelada

 Memória arfante donde alguém que chamo

Para outros braços cardiais me nega

Restos de rosa entre lençóis de olvido.

Ao longe ladra um coração na cega

Noite ambulante.

 E escuto-te o mugido,

Oh vento que meu cérebro aleitaste,

Tempo que meu destino ruminaste.

Amor, amo, enquanto luzes, puro,

Dormido e claro, eu velo em vasto escuro,

 Ouvindo as asas roucas de outro dia

 Cantar sem despertar minha alegria.

by

Mário Faustino

O gato e o pássaro

•02/07/2009 • 2 Comentários
  •  

    ”Uma cidade escuta desolada
    O canto de um pássaro ferido

    É o único pássaro da cidade

    Que ogato devorou pela metade

    E o pássaro pára de cantar

    O gato pára de ronronar

    E de lamber o focinho

    E a cidade prepara para o pássaro

    Maravilhosos funerais

    E o gato que foi convidado

    Segue o caixãozinho de palha

    Em que deitado está o pássaro morto

    Levado por uma menina

    Que não pára de chorar

    Se soubesse que você ia sofrer tanto

    Lhe diz o gato

    Teria comido ele todinho

    E depois teria te dito

    Que tinha visto ele voar

    Voar até o fim do mundo

    Lá onde o longe é tão longe

    Que de lá não se volta mais

    Você teria sofrido menos

    Sentiria apenas tristeza e saudades

    Não se deve deixar as coisas pela metade”.

    (Jacques Prévert)

O Oficio de Viver

•20/06/2009 • 1 Comentário

Andrew Newel Wyeth, in Wind fron the sea

Andrew Newel Wyeth, in Wind fron the sea

A mais suave, pacata e mole das estações, o Outono, suplanta a anterior e instala-se com sobressaltos medrosos, temporais enormes, manhãs escuras, turbilhões e massacres de folhas que fazem compreender quanta violência custa a maturidade.

 
Cesare Pavese, in O Ofício de Viver

Noturno de um outono

•01/06/2009 • Deixe um comentário
Não devo subir as escadas do sonho,
Nem olhar as catedrais do tempo,
O ser indecifrável me espera no sotão,
com a indiferença das pedras,
milhares de anos sem luz.
Faço companhia ao espelho  da agua da chuva,
 à vidraça gelada,
à porta trancada.
As árvores continuam sua espera , suportando o inverno,
sou eu, o cerne dessa imagem,
a captar uma realidade irreal.
O mais atroz é essa frase inacabada,
palavra perdida,
erro suicida.
Não é verdade a transcendência,
 o milagre redentor,
a morte justificada.
Não é verdade e essa é a vida. E eu sonhei.
Resta a tragédia habitual do indivisível,
do silencio que escraviza ,
do tédio, e praticamos esse ato todos os dias.
Compreendo que o amor   é literatura.
O ódio, a suspeita de que a linguagem foi descontruida.
Defesa contra as coisas.
Ou a sede de um amor bem escrito.
by
Anna Montenegro

Defensa de la alegria (in memorian)

•20/05/2009 • Deixe um comentário

kandinsky1.jpg

Vassili Kandinsky

Defender la alegría como una trinchera
defenderla del escándalo y la rutina
de la miseria y los miserables
de las ausencias transitorias
y las definitivas

defender la alegría como un principio
defenderla del pasmo y las pesadillas
de los neutrales y de los neutrones
de las dulces infamias
y los graves diagnósticos

defender la alegría como una bandera
defenderla del rayo y la melancolía
de los ingenuos y de los canallas
de la retórica y los paros cardiacos
de las endemias y las academias

defender la alegría como un destino
defenderla del fuego y de los bomberos
de los suicidas y los homicidas
de las vacaciones y del agobio
de la obligación de estar alegres

defender la alegría como una certeza
defenderla del óxido y la roña
de la famosa pátina del tiempo
del relente y del oportunismo
de los proxenetas de la risa

defender la alegría como un derecho
defenderla de dios y del invierno
de las mayúsculas y de la muerte
de los apellidos y las lástimas
del azar
y también de la alegría

by

Mario Benedetti

Onde os deuses se encontram

•21/04/2009 • Deixe um comentário
 Dannielle Mick, in Water,sky and landscapes (pastel and acrylics)

Dannielle Mick, in Water,sky and landscapes (pastel and acrylics)

 Não busques não esperes

Como procurar a nudez do simples?
Os deuses encontram-se no refúgio aberto sombreado

O círculo dilata-se e dilata-nos
O lugar revela-se no esplendor da luz

O mar levanta as suas lâmpadas brancas

Diz de novo a fascinante simplicidade

Diz agora as minúcias
deslumbrantes
arcos na areia insectos frutos

Tanta luz tanta sombra iluminada!

by

Antonio Ramos Rosa

Elegia a uma pequena borboleta

•12/04/2009 • 1 Comentário
Robert Scott Duncanson , in At the Foot of the cross

Robert Scott Duncanson , in At the Foot of the cross

Como chegavas do casulo,
— inacabada seda viva —
tuas antenas — fios soltos
da trama de que eras tecida,
e teus olhos, dois grãos da noite
de onde o teu mistério surgia,

como caíste sobre o mundo
inábil, na manhã tão clara,
sem mãe, sem guia, sem conselho,
e rolavas por uma escada
como papel, penugem, poeira,
com mais sonho e silêncio que asas,

minha mão tosca te agarrou
com uma dura, inocente culpa,
e é cinza de lua teu corpo,
meus dedos, sua sepultura.
Já desfeita e ainda palpitante,
expiras sem noção nenhuma.

Ó bordado do véu do dia,
transparente anêmona aérea!
não leves meu rosto contigo:
leva o pranto que te celebra,
no olho precário em que te acabas,
meu remorso ajoelhado leva!

Choro a tua forma violada,
miraculosa, alva, divina,
criatura de pólen, de aragem,
diáfana pétala da vida!
Choro ter pesado em teu corpo
que no estame não pesaria.

Choro esta humana insuficiência:
— a confusão dos nossos olhos
— o selvagem peso do gesto,
— cegueira — ignorância — remotos
instintos súbitos — violências
que o sonho e a graça prostram mortos

Pudesse a etéreos paraísos
ascender teu leve fantasma,
e meu coração penitente
ser a rosa desabrochada
para servir-te mel e aroma,
por toda a eternidade escrava!

E as lágrimas que por ti choro
fossem o orvalho desses campos,
— os espelhos que refletissem
— vôo e silêncio — os teus encantos,
com a ternura humilde e o remorso
dos meus desacertos humanos!

by

Cecilia Meirelles

Oração

•05/04/2009 • Deixe um comentário

Senhor,

Permita que eu envelheça sem amargura
e que viva meus dias como se fossem novos

Que eu nao me canse de minhas lembranças
nem de minhas rugas
que eu aprenda a ficar em silencio com a saudade
e que eu seja como uma lagoa mansa, cheia de peixes.
Permita , Senhor, que eu ainda ame as rosas
Os pássaros, o tempo
E que meus passos nao corram velozes e inutilmente
em busca do grande navio de velas ao vento, a juventude.

Senhor,

permita que minha alma nao seja espessa
que a minha fonte de palavras seja tao clara
como o dia
que meu rosto nao conte do mar profundo,
nem da treva fria

Senhor,

Permita minha humanidade,
elo entre as circunstâncias e os desencontros
destino e história
Permita que eu saiba me consolar por ter aberto caminhos
aos que ficam para me lembrar , ou para me esquecer.

Amém.

by
Anna Montenegro

Viagens através do espelho

•26/03/2009 • Deixe um comentário

 

Edgar Degas, in Bailarinas de Azul (1890) – Impressionismo

Por vezes, atrás de nós, há um ruído insistente. Vamos por uma rua, estamos sentados na gare dum aeroporto, num café pouco frequentado, acabámos de nos levantar do banco de um jardim numa cidade estrangeira onde nos encontramos absolutamente sós ou, então, numa taberna de uma pequena estância balnear que visitamos pela primeira vez.

O ruído pode ser o de uma ferramenta manejada por um operário desconhecido, um animal enclausurado que forceja por se escapulir, uma qualquer máquina de que jamais veremos os contornos, o assobio intermitente de uma sirene de oficina ou de embarcação. Mais raramente, gritos abafados – que não identificámos ou que não sabemos de onde vêm.

Quem se esqueceu, quem pode olvidar a sensação de surpresa, de estranheza, de arrepio que esse barulho, quebrando a naturalidade do fragmento de quotidiano, despertou em nós?

Frequentemente, os poemas de certos autores são também assim: arrastam, suspendem, distorcem por um breve instante o mundo em que nos fixáramos, no qual excursionávamos ou que nos preparávamos para ocupar. São inquietantes, nostálgicos, palpitantes e, se nos sugestionam como a súbita aparição de uma paisagem desconhecida mas reconhecível, também criam em nós uma espécie de encantamento provocado por misteriosos filtros ou poções de secreta proveniência.

E afinal, para maior maravilha, tudo se passa no quotidiano. Tudo se revela, existe, projecta e vive a partir desse dia-a-dia em que as pessoas viajam, deambulam e se relacionam como se o fizessem num universo penoso ou fecundado pela alegria. Um universo concreto, onde existem sombras e luz.

Depois, tudo começa a existir nos livros e em nós enquanto leitores: de repente os poemas passam a pertencer-nos, tal como as visões das maiores aventuras que eles transportam. E, mais e melhor, afinal somos donos dos livros, essas máquinas de imaginar que a cada instante traçam no espaço rotas intemporais. Como num sonho (melhor, na realidade) somos habitantes dum país encantado, porque também as palavras que formam os versos, matéria aparentemente volátil, passam a ser tão nossas como um coração, um braço, as artérias ou a mão alucinada com que erguemos os sinais tempestuosos.


by

Nicolau Saião