Plenitude
•02/02/2010 • Deixe um comentárioReflexoes de um escritor
•01/02/2010 • Deixe um comentário“…há quase dez anos sou um homem que desperta, curado de longa, amarga e mansa loucura, e que está perplexo, e que não consegue lembrar-se, sem rir, de seus antigos erros, e que não sabe o que fazer de sua vida. Voltei a ser o viajante sem passagem que era aos sete anos: o condutor entrou no meu compartimento, ele me fita, menos severo que outrora: na realidade, só deseja ir embora, deixar-me concluir a viagem em paz; basta que lhe dê uma desculpa válida, não importa qual, ele a aceitará. Infelizmente não acho nenhuma e, aliás, não tenho mesmo vontade de procurá-la: ficaremos a sós um com o outro, no mal-estar até Dijon, onde bem sei que ninguém me espera.
Desinvesti, mas não me evadi: escrevo sempre. Que outra coisa fazer?
Nulla dies sine linea.
É meu hábito e também é meu ofício. Durante muito tempo tomei minha pena por uma espada: agora, conheço nossa impotência. Não importa: faço e farei livros; são necessários; sempre servem, apesar de tudo. A cultura não salva nada nem ninguém, ela não justifica. Mas é um produto do homem: ele se projeta, se reconhece nela; só este espelho crítico lhe oferece a própria imagem.
De resto, esse velho edifício ruinoso, minha impostura, é também meu caráter: a gente se desfaz de uma neurose, mas não se cura de si próprio.
Trecho de As palavras de Jean-Paul Sartre (1964)
Passagem do Ano
•28/01/2010 • Deixe um comentárioO último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o
[ calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória,
[ doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o
[ clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.
O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus…
Recebe com simplicidade este presente do
[ acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos
[ séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras
[ espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles… e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
by
Carlos Drumond de Andrade
Feliz Ano Novo!
•30/12/2009 • Deixe um comentárioAos amigos e visitantes!
Que o Belo e o Bom sejam a marca dos novos dias de 2010.
com carinho,
Rosana
O livro sobre o nada
•18/12/2009 • Deixe um comentárioCom pedaços de mim eu monto um ser atônito.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.
Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.
A inércia é o meu ato principal.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Por pudor sou impuro.
Não preciso do fim para chegar.
De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.
Do lugar onde estou já fui embora.
by
Manoel de Barros
Os sobreviventes
•14/12/2009 • Deixe um comentárioSomos sobreviventes do tempo
De muitos dezembros iluminados,
De chuvas de primavera
Reinaçoes de verde e flores.
Como os pássaros, sobreviventes dos temporais noturnos,
De angustias guardadas sob os lençois silenciosos,
Dos gritos digeridos em xícaras de chá.
Somos sobreviventes de infinitas perguntas sem respostas
Em nossos livros de perplexidades
Somos sobreviventes
De muitas palavras desenhadas por nossa memória
E que formulam nossas ignorancias.
Somos sobreviventes da ausencia e da presença do outro,
E do círculo que nunca se fecha
ao redor do mundo.
Somos sobreviventes do acaso do universo
que apaga a luz de nossos olhos
e como um véu nos cobre de velhice.
Sobreviventes dessa beleza infinita
nas pequenas coisas que escapam pela ampulheta
e se tornam passado.
Somos sobreviventes,
de momentos de solitude,
E quando fechamos os braços
os imaginamos asas quebradas
de um pássaro que nunca voou.
by
Anna Montenegro
Painel
•30/11/2009 • Deixe um comentárioOra uma noite de luar medonho
(lembro-me disto como dum sonho)
Alevantou-se um Homem a meu lado,
Todo nu, e desfigurado.
Mal me atrevendo a olhá-lo, eu quase só adivinhava
Seu corpo devastado que sangrava…
E uma lembrança, longe, longe, havia em mim
De já o ter amado, ou outro assim.
Seu rosto, que, decerto, era sereno e puro,
Resplandecia, como um mármore, no escuro;
E as suas lágrimas, rolando devagar,
Deixavam rastros que faziam luar…
Eu prosseguia, todo trémulo e confuso,
Cheio de amor e de terror por esse intruso.
À minha mão direita, ele avançava aèreamente,
Com seu ar espectral e transcendente…
Os seus pés nem pousavam no caminho;
E então, eu desatei a soluçar baixinho,
Porque notara que em seu rosto exangue
As suas lágrimas corriam misturadas com seu sangue.
Oh, onde a vira eu, essa figura peregrina
Feita de terra humana e de ascensão divina?
Sim, onde a vira eu, que, só de o perguntar,
Me arrepiava, com vertigens de ajoelhar?
Mas, de repente, como um sobressalto,
E como a angústia de quem rola de muito alto,
Alguma coisa em mim passou, que pressentia,
E que se arrepelava, e que tremia…
É que em meu ombro esquerdo alguém se debruçava,
Alguém que ria um riso que espantava,
Um riso tenebroso, e cheio de atracção,
Com fogo dentro como a boca dum vulcão!
E, sem o ver, eu via-o todo inteiro,
Essoutro novo e inseparável companheiro:
Um que também conheço, nem sei donde nem de quando,
Por mais que me torture procurando…
E tinha pés de cabra, e tinha chifres, tinha pêlos,
E tinha olhos sulfúricos, esfíngicos e belos…
A baba do seu riso escorregava-lhe da boca,
E em todo ele ardia uma lascívia louca!
À minha mão direita, absorto, aéreo, hirto,
Coroado de abrolhos e de mirto,
O Outro continuava a chorar lágrimas caladas,
Com as mãos lassas como rosas desfloradas…
Entre os dois, eu sentia-me pequeno e miserando,
Vibrando todo, tumultuando, soluçando,
Com olhos meigos, lábios torpes – indeciso
Entre um inferno e um paraíso!
Um riso doido e cínico, sem regra,
Subia em mim como uma onda negra,
E, estrelados de lágrimas, meus olhos inocentes
Ajoelhavam como penitentes…
Entretanto, os dois vultos desmedidos
Iam crescendo entre os meus risos e gemidos,
Crescendo sempre, sempre e tanto, que, depois,
Eu ficava esmagado entre eles dois.
A noite em que isto foi, não sei…, sei lá?… (Seria
Essa em que minha Mãe, com tanta angústia, me paria…)
Sei que o luar era medonho, era amarelo,
E que tudo isto me parece um pesadelo!
by
José Régio, in Poemas de Deus e do Diabo
Súplica
•15/11/2009 • Deixe um comentário
cricketdiane.wordpress.com
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
by
Miguel Torga
•07/11/2009 • Deixe um comentário

E havia as grandes noites
Os grilos inquietos nas paredes gastas
Uma paisagem imaginaria sob os lampioes
Um cheiro de flor e de compotas
Uma esperança baldia
Aguardando o futuro.
Havia as grandes chuvas
chávenas fumegantes
toalhas bordadas de azul
a fruta madura
na economica mesa
alimentando o presente
Havia o pio do pássaro preso
o canto da mulher que enlouquecia
as cartas nunca enviadas
as carícias nunca recebidas
Eram ecos do passado
passageiro fugaz
no pêndulo do relógio.
E havia o grande dia.
Que nunca foi servido.
by
Anna Montenegro
Solidão
•19/10/2009 • Deixe um comentário
Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso
Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio
É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou
Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna
Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo
by
Mia Couto, in “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”
A bela de Amherst
•17/10/2009 • Deixe um comentário
245
Tive uma jóia nos meus dedos —
E adormeci —
Quente era o dia, tédio os ventos —
“É minha”, eu disse —
Acordo — e os meus honestos dedos
(Foi-se a Gema) censuro —
Uma saudade de Ametista
É o que eu possuo —
by
Emily Dickinson
Tradução: Augusto de Campos
Adágio
•15/10/2009 • Deixe um comentário
Acreditas que a poesia nasce de claridades e clarividências?
Engana-te.
A poesia brota das sombras, dos sussurros, das imagens ocultas nos jardins sem flores.
Nos vãos emparedados, sob palavras que se apóiam uma às outras
Depois de exalados perfumes discretos, como as lembranças daquilo que não se viveu.
A poesia se oculta atrás de portas fechadas, ante a veneziana que aprisiona o sol em reflexos de renda.
Na chuva noturna que forma orvalhos frios nos brotos da hera,
No vento que engravida a cortina
Com polém secreto
Engana-te se procuras a poesia em dias felizes
Passageira de um comboio perdido,
Num vagão de terceira classe
Viaja para a terra não prometida.
Altiva desembarca em estações sem passageiros
senão tu.
by
Anna Montenegro
Credo da inquietude
•13/10/2009 • Deixe um comentário
Se por acaso eu chegasse um dia à Terra Prometida, que faria depois?
Se eu lesse, relesse, treslesse todos os livros, leria o quê?
Se eu erguesse minha casa e dissesse: – Satisfaz! – com que haveria de me distrair?
Se fosse suficiente erguer o braço para obter o que preciso, como passaria o tempo?
Se me sentisse irmão de meus iguais e desiguais, onde acharia meu inimigo?
Se o que eu buscasse estivesse onde estou, procuraria o quê?
Se o meu mundo ficasse pronto, que haveria para modificar e melhorar?
Perdoe-me Deus, mas se todos esses ses acontecessem, eu ficaria cansado, cansadíssimo de não ter que inventar mais nada.
E talvez desistisse de viver.
Réplica de Deus
Contumaz criatura. Por todos os meios tentei salvá-la de suas próprias artimanhas. Dei-lhe um olhar luminoso e a faculdade de perceber-se e perceber o mundo. Concedi-lhe o livre arbítrio de escolher entre ser espelho de Meu opus perfeito ou motor de si mesma, na construção de uma obra que exclui o resto e só leva ao desastre. Ela preferiu sua própria Torre de Babel. Compraz-se em seus escuros labirintos e imita-Me na criação de mundos paralelos. Reincide. Várias vezes submergiu em cataclismas auto-infringidos. E sempre recomeçou arrogante e dominadora. O resultado é o que aí está: desequilíbrios mortais, desarmonias sem remédio, gritos plangentes e queixas lancinantes que surgem de todos os quadrantes do orbe. E agora, também dos espaços siderais.
A cada vez, quando ela tenta consertar-se já é tarde demais.
O fim se conduz a si mesmo. Não interfiro. Mas até quando?
Meus acessores sugerem uma reversão à pura condição de animal sem consciência, com uma bússola instalada no coração em vez do livre-arbítrio no cérebro. Mas eu teria de inventar um novo espelho, a não ser que Me conformasse, em definitivo, com a condição de artista anônimo.
Nesse caso, ninguém usufruiria de Minha obra-prima.
by
Per Johns
Antologia
•28/09/2009 • Deixe um comentário
Edward Munch, in Melancolia
Como morrer se existe o mar,
Se o Tejo canta tristemente para os barcos
E chama as andorinhas
Como adiar esse encontro inesperado
e desesperado e
pedir para ficar um pouco mais
enquanto as nuvens vem e
e desenham figuras em seus desvaõs
a maresia,
o buliço
acendem lanternas
no coração.
como morrer
e esquecer o pássaro azul
desavisado hospede
de um céu impálpável
vontade de ser barqueiro
e fazer voltar as almas
do Hades
devolver o ardor da terra
e a existencia do mar
como morrer
e levar muda
essa antologia de espanto.
by
Anna Montenegro
•21/09/2009 • Deixe um comentário

René Magritte
As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos – digo,
As mulheres – ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam
É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas
Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos – no pescoço das mães – ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos
As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.
by
Daniel Faria
Somos todos poetas
•10/09/2009 • 1 Comentário
André Breton, in Untitled
uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando sou um fluído,
depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
me pregaram numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamento,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações…
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.
Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.
Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”. ..
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito.
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.
by
Murilo Mendes
Escreveu aos 24 anos, na publicação Antropofagia
•05/09/2009 • Deixe um comentário

Fragmentos de um discurso amoroso”
Encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas centenas, amo apenas um. O outro pelo qual estou apaixonado me designa a especialidade do meu desejo. (…) Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que eu encontre a Imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis um grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo Esse? Por que o desejo por tanto tempo, languidamente?… “
by Roland Barthes
•04/09/2009 • Deixe um comentário
Um lugar no coração
há um lugar no coração que
nunca será preenchido
um espaço
e mesmo nos
melhores momentos
e
nos melhores
tempos
nós saberemos
nós saberemos
mais que
nunca
há um lugar no coração que
nunca será preenchido
e
nós iremos esperar
e
esperar
nesse
lugar.
by
Charles Bukowski
•28/08/2009 • Deixe um comentário
Plano
Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.
by
Nuno Judice
•19/08/2009 • Deixe um comentário

Dor, dor de minha alma, é madrugada
E aportam-me lembranças de quem amo.
E dobram sonhos na mal-estrelada
Memória arfante donde alguém que chamo
Para outros braços cardiais me nega
Restos de rosa entre lençóis de olvido.
Ao longe ladra um coração na cega
Noite ambulante.
E escuto-te o mugido,
Oh vento que meu cérebro aleitaste,
Tempo que meu destino ruminaste.
Amor, amo, enquanto luzes, puro,
Dormido e claro, eu velo em vasto escuro,
Ouvindo as asas roucas de outro dia
Cantar sem despertar minha alegria.
by
Mário Faustino







