O gato e o pássaro

•07/02/2009 • Deixe um comentário
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    ”Uma cidade escuta desolada
    O canto de um pássaro ferido

    É o único pássaro da cidade

    Que ogato devorou pela metade

    E o pássaro pára de cantar

    O gato pára de ronronar

    E de lamber o focinho

    E a cidade prepara para o pássaro

    Maravilhosos funerais

    E o gato que foi convidado

    Segue o caixãozinho de palha

    Em que deitado está o pássaro morto

    Levado por uma menina

    Que não pára de chorar

    Se soubesse que você ia sofrer tanto

    Lhe diz o gato

    Teria comido ele todinho

    E depois teria te dito

    Que tinha visto ele voar

    Voar até o fim do mundo

    Lá onde o longe é tão longe

    Que de lá não se volta mais

    Você teria sofrido menos

    Sentiria apenas tristeza e saudades

    Não se deve deixar as coisas pela metade”.

    (Jacques Prévert)

O Oficio de Viver

•06/20/2009 • 1 Comentário

Andrew Newel Wyeth, in Wind fron the sea

Andrew Newel Wyeth, in Wind fron the sea

A mais suave, pacata e mole das estações, o Outono, suplanta a anterior e instala-se com sobressaltos medrosos, temporais enormes, manhãs escuras, turbilhões e massacres de folhas que fazem compreender quanta violência custa a maturidade.

 
Cesare Pavese, in O Ofício de Viver

Noturno de um outono

•06/01/2009 • Deixe um comentário
Não devo subir as escadas do sonho,
Nem olhar as catedrais do tempo,
O ser indecifrável me espera no sotão,
com a indiferença das pedras,
milhares de anos sem luz.
Faço companhia ao espelho  da agua da chuva,
 à vidraça gelada,
à porta trancada.
As árvores continuam sua espera , suportando o inverno,
sou eu, o cerne dessa imagem,
a captar uma realidade irreal.
O mais atroz é essa frase inacabada,
palavra perdida,
erro suicida.
Não é verdade a transcendência,
 o milagre redentor,
a morte justificada.
Não é verdade e essa é a vida. E eu sonhei.
Resta a tragédia habitual do indivisível,
do silencio que escraviza ,
do tédio, e praticamos esse ato todos os dias.
Compreendo que o amor   é literatura.
O ódio, a suspeita de que a linguagem foi descontruida.
Defesa contra as coisas.
Ou a sede de um amor bem escrito.
by
Anna Montenegro

Defensa de la alegria (in memorian)

•05/20/2009 • Deixe um comentário

kandinsky1.jpg

Vassili Kandinsky

Defender la alegría como una trinchera
defenderla del escándalo y la rutina
de la miseria y los miserables
de las ausencias transitorias
y las definitivas

defender la alegría como un principio
defenderla del pasmo y las pesadillas
de los neutrales y de los neutrones
de las dulces infamias
y los graves diagnósticos

defender la alegría como una bandera
defenderla del rayo y la melancolía
de los ingenuos y de los canallas
de la retórica y los paros cardiacos
de las endemias y las academias

defender la alegría como un destino
defenderla del fuego y de los bomberos
de los suicidas y los homicidas
de las vacaciones y del agobio
de la obligación de estar alegres

defender la alegría como una certeza
defenderla del óxido y la roña
de la famosa pátina del tiempo
del relente y del oportunismo
de los proxenetas de la risa

defender la alegría como un derecho
defenderla de dios y del invierno
de las mayúsculas y de la muerte
de los apellidos y las lástimas
del azar
y también de la alegría

by

Mario Benedetti

Onde os deuses se encontram

•04/21/2009 • Deixe um comentário
 Dannielle Mick, in Water,sky and landscapes (pastel and acrylics)

Dannielle Mick, in Water,sky and landscapes (pastel and acrylics)

 Não busques não esperes

Como procurar a nudez do simples?
Os deuses encontram-se no refúgio aberto sombreado

O círculo dilata-se e dilata-nos
O lugar revela-se no esplendor da luz

O mar levanta as suas lâmpadas brancas

Diz de novo a fascinante simplicidade

Diz agora as minúcias
deslumbrantes
arcos na areia insectos frutos

Tanta luz tanta sombra iluminada!

by

Antonio Ramos Rosa

Elegia a uma pequena borboleta

•04/12/2009 • Deixe um comentário
Robert Scott Duncanson , in At the Foot of the cross

Robert Scott Duncanson , in At the Foot of the cross

Como chegavas do casulo,
— inacabada seda viva —
tuas antenas — fios soltos
da trama de que eras tecida,
e teus olhos, dois grãos da noite
de onde o teu mistério surgia,

como caíste sobre o mundo
inábil, na manhã tão clara,
sem mãe, sem guia, sem conselho,
e rolavas por uma escada
como papel, penugem, poeira,
com mais sonho e silêncio que asas,

minha mão tosca te agarrou
com uma dura, inocente culpa,
e é cinza de lua teu corpo,
meus dedos, sua sepultura.
Já desfeita e ainda palpitante,
expiras sem noção nenhuma.

Ó bordado do véu do dia,
transparente anêmona aérea!
não leves meu rosto contigo:
leva o pranto que te celebra,
no olho precário em que te acabas,
meu remorso ajoelhado leva!

Choro a tua forma violada,
miraculosa, alva, divina,
criatura de pólen, de aragem,
diáfana pétala da vida!
Choro ter pesado em teu corpo
que no estame não pesaria.

Choro esta humana insuficiência:
— a confusão dos nossos olhos
— o selvagem peso do gesto,
— cegueira — ignorância — remotos
instintos súbitos — violências
que o sonho e a graça prostram mortos

Pudesse a etéreos paraísos
ascender teu leve fantasma,
e meu coração penitente
ser a rosa desabrochada
para servir-te mel e aroma,
por toda a eternidade escrava!

E as lágrimas que por ti choro
fossem o orvalho desses campos,
— os espelhos que refletissem
— vôo e silêncio — os teus encantos,
com a ternura humilde e o remorso
dos meus desacertos humanos!

by

Cecilia Meirelles

Oração

•04/05/2009 • Deixe um comentário

Senhor,

Permita que eu envelheça sem amargura
e que viva meus dias como se fossem novos

Que eu nao me canse de minhas lembranças
nem de minhas rugas
que eu aprenda a ficar em silencio com a saudade
e que eu seja como uma lagoa mansa, cheia de peixes.
Permita , Senhor, que eu ainda ame as rosas
Os pássaros, o tempo
E que meus passos nao corram velozes e inutilmente
em busca do grande navio de velas ao vento, a juventude.

Senhor,

permita que minha alma nao seja espessa
que a minha fonte de palavras seja tao clara
como o dia
que meu rosto nao conte do mar profundo,
nem da treva fria

Senhor,

Permita minha humanidade,
elo entre as circunstâncias e os desencontros
destino e história
Permita que eu saiba me consolar por ter aberto caminhos
aos que ficam para me lembrar , ou para me esquecer.

Amém.

by
Anna Montenegro

Viagens através do espelho

•03/26/2009 • Deixe um comentário

 

Edgar Degas, in Bailarinas de Azul (1890) – Impressionismo

Por vezes, atrás de nós, há um ruído insistente. Vamos por uma rua, estamos sentados na gare dum aeroporto, num café pouco frequentado, acabámos de nos levantar do banco de um jardim numa cidade estrangeira onde nos encontramos absolutamente sós ou, então, numa taberna de uma pequena estância balnear que visitamos pela primeira vez.

O ruído pode ser o de uma ferramenta manejada por um operário desconhecido, um animal enclausurado que forceja por se escapulir, uma qualquer máquina de que jamais veremos os contornos, o assobio intermitente de uma sirene de oficina ou de embarcação. Mais raramente, gritos abafados – que não identificámos ou que não sabemos de onde vêm.

Quem se esqueceu, quem pode olvidar a sensação de surpresa, de estranheza, de arrepio que esse barulho, quebrando a naturalidade do fragmento de quotidiano, despertou em nós?

Frequentemente, os poemas de certos autores são também assim: arrastam, suspendem, distorcem por um breve instante o mundo em que nos fixáramos, no qual excursionávamos ou que nos preparávamos para ocupar. São inquietantes, nostálgicos, palpitantes e, se nos sugestionam como a súbita aparição de uma paisagem desconhecida mas reconhecível, também criam em nós uma espécie de encantamento provocado por misteriosos filtros ou poções de secreta proveniência.

E afinal, para maior maravilha, tudo se passa no quotidiano. Tudo se revela, existe, projecta e vive a partir desse dia-a-dia em que as pessoas viajam, deambulam e se relacionam como se o fizessem num universo penoso ou fecundado pela alegria. Um universo concreto, onde existem sombras e luz.

Depois, tudo começa a existir nos livros e em nós enquanto leitores: de repente os poemas passam a pertencer-nos, tal como as visões das maiores aventuras que eles transportam. E, mais e melhor, afinal somos donos dos livros, essas máquinas de imaginar que a cada instante traçam no espaço rotas intemporais. Como num sonho (melhor, na realidade) somos habitantes dum país encantado, porque também as palavras que formam os versos, matéria aparentemente volátil, passam a ser tão nossas como um coração, um braço, as artérias ou a mão alucinada com que erguemos os sinais tempestuosos.


by

Nicolau Saião

Epílogo

•03/20/2009 • Deixe um comentário

Fui
hóspede desta mansão
na encruzilhada
dos meus sentidos.

O verso apenas é,
transversal e findo,
o poleiro evocativo
da ave do meu canto.

Essa ave em que o Outono
se perfila
e, cada vez mais exígua
no rumo e nas vigílias
do seu bando,
de súbito, espirala
até sumir-se
num país imaginário.

by

Sebastião Alba

Pedra Filosofal

•03/15/2009 • Deixe um comentário

Dancing blindly in the field of dreams - Original Painting by Jaime Best

Jaime Best

Eles não sabem que o sonho
e’ uma constante da vida

tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
e’ vinho, e’ espuma, e’ fermento,
bichinho a’lacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpetuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
e’ tela, e’ cor, e’ pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pina’culo de catedral,
contraponto, sinfonia,
mascara grega, magia,
que e’ retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que e’ Cabo da Boa Esperanca,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de danca,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
para-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do atomo, radar,
ultra-som, televisao,
desembarque em foguetão
na superficie lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos duma criança.

in “Movimento Perpétuo”, 1956

by

Antonio Gedeao

•03/13/2009 • Deixe um comentário

 

 

Rogério Silva, in série Vanitas
Rogério Silva, in série Vanitas

 

 

(…)
Multipliquei-me para me sentir
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.
by
Fernando Pessoa

 

 

Nada é para sempre.Mas a esperança é o meu pecado maior.

Silêncio

•03/12/2009 • 1 Comentário

Henry Fuseli

Henry Fuseli

Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios se emudecem.

 

by
Otavio Paz

(de Libertad bajo palabra, 1960 / traduzido por Luís Pignatelli e incluído em Antologia Poética, publicações Dom Quixote, 1984 – Poesia Século XX)

Jactância de quietude

•03/11/2009 • Deixe um comentário

 

 

 

Jordan Pond Path, Seal Harbor, ME, by Herbert Brown

Jordan Pond Path, Seal Harbor, ME, by Herbert Brown

,

Escrituras de luz embestem a sombra, mais prodigiosa que meteoros.
A alta cidade irreconhecível se faz violenta sobre o campo.
Seguro da minha vida e da minha morte, vejo aos ambiciosos e quisesse
entendê-los.
Seu dia é ávido como o laço no ar.
Sua noite é trégua da ira no ferro, pronto em acometer.
Falam de humanidade.
Minha humanidade está em sentir que somos vozes de uma mesma
penúria.
Falam de pátria.
Minha pátria é um palpitado de violão, uns retratos e uma velha
espada,
a oração evidente do salgueiro nos entardeceres.
O tempo está vivendo-me.
Mais silencioso que minha sombra, cruzo o tumulto da sua levantada
cobiça.
Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores do amanhã. Meu
nome é alguém e qualquer.
Seu verso é um requerimento de alheia admiração.
Eu solicito do meu verso que não me contradiga, e é muito.
Que não seja persistência de formosura, mas sim de certeza
espiritual.
Eu solicito do meu verso que os caminhos e a solidão o testemunhem.
Gostosamente ociosa a fé, passou beirando meu viver.
Passou com lentidão, como quem vem de tão longe que não espera
chegar.

 

by
Jorge Luis Borges

Finitude

•03/10/2009 • 1 Comentário

Salvador Dali
Salvador Dali
Senhor,permite que algo permanença,

alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte,nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?…….
by
Manuel Antonio Pina, 1924, Portugal

Balada do lado sem luz

•03/07/2009 • Deixe um comentário

O mundo da sombra, caverna escondida
Onde a luz da vida foi quase apagada
O mundo da sombra, região do escuro
Do coração duro, da alma abalada, abalada
Hoje eu canto a balada do lado sem luz
Subterrâneos gelados do eterno esperar
Pelo amor, pelo pão, pela libertação
Pela paz, pelo ar, pelo mar
Navegar, descobrir outro dia, outro sol
Hoje eu canto a balada do lado sem luz
A quem não foi permitido viver feliz e cantar
Como eu
Ouça aquele que vive do lado sem luz
O meu canto é a confirmação da promessa que diz
Que haverá esperança enquanto houver
Um canto mais feliz
Como eu gosto de cantar
Como eu prefiro cantar
Como eu costumo cantar
Como eu gosto de cantar
Quando não tão a balada, a balada, a balada

by

Gilberto Gil

O sono das águas

•02/28/2009 • Deixe um comentário


Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d¿água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…

As palavras

•02/15/2009 • Deixe um comentário

 

 

 

Wassili Kandisnky

Wassili Kandisnky

“Agora só espero a despalavra: a palavra nascida
para o canto- desde os pássaros.
A palavra sem pronúncia, ágrafa.
Quero o som que ainda não deu liga.
Quero o som gotejante das violas de cocho.
A palavra que tenha um aroma cego.
Até antes do murmúrio.
Que fosse nem um risco de voz.
Que só mostrasse a cintilância dos escuros.
A palavra incapaz de ocupar o lugar de uma
imagem.
O antesmente verbal: a despalavra mesmo”.

                    (BARROS, Manoel de. Retrato do artista quando coisa)

 

“Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
Tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres.
Trouxeste a chave”?

                               (Carlos Drumond de Andrade)

Com a minha linguagem eu posso fazer tudo.Até, e principalmente, nao dizer nada.

Roland Barthes

Chegar lá

•02/13/2009 • Deixe um comentário
E agora quero a palavra reduzida ao simples gesto de agarrar alguma coisa, pura denotação, linguagem referência, mão estendida apontando para esses pedaços de realidade – ou então a festa com todos os seus fantasmas sentados no sofá de absinto enquanto sangram os dedos da memória, tudo verdadeiro no limite do que possa ser verdade, o caderno escrito de trás para diante e o livro lido a partir da última página, e também poderia falar das nuvens de vapor e cortinas de fumaça nos quartos, e narrar a história completa das febres tropicais – porém só nós dois fomos capazes de nos mover nesse plano intermediário em que realidade e sonho se confundem, tocados pela sugestão de outra cena ou situação. Essência, é esse o nome da nossa transação. Essência, essência! – grita a legião dos Irreais desde o bojo de sua existência provável. Essência, o verdadeiro nome do jogo de mutações. Desnecessário falar em alucinações – é como atravessar uma parede invisível, e já estamos lá. O texto febril. As luzes acesas. As luzes acesas. As luzes – acesas. Por exemplo – mas o número de exemplos é maior que toda a existência – por exemplo as luzes acesas, rebatidas meio cruamente pelos azulejos brancos iluminando nossos corpos enquanto nós nos preparávamos para começar mais um jogo amoroso. Lembro-me também das praias desertas, percorridas de ponta a ponta. Ou quando descobrimos aquela cachoeira no meio do mato, aquela cachoeira que devia ter uns 30 ou 50 metros de queda livre, seus respingos gelados nos alcançavam na margem, impossível chegar muito perto – aquela cachoeira descoberta no meio da mata nos induzia à cumplicidade. As luzes acesas. Cumplicidade. Essência. E aquele espelho antigo – aquele espelho antigo bisotado, patinado, recoberto pelo amarelo do tempo – aquele espelho antigo nos refletiu durante uma tarde. Estava na penteadeira diante da cama no quarto do casarão colonial de fazenda, com os demais móveis maciços e pesadões e o cheiro de pó, de coisa antiga do quarto. Também encontrávamos muitos santuários religiosos em nossas viagens, era como se nos impulsionasse uma atração magnética pelo sagrado. Certas tardes insuportavelmente quentes, abafadas demais. Houve um tempo em que. As luzes. Essência. Impregnando irremediavelmente tudo o que foi feito depois. Como a transgressão é quotidiana e imperceptível, como ser maldito é apenas uma espécie de indiferença, lassidão, o deixar-se levar. O cheiro de pó sobre os estofados. Eu quero que tudo fique muito claro. Não só as palavras, o texto, porém outro plano, agora definitivamente grudado ao real. Ficou um cheiro estranho, impregnando a pele. Tudo verdadeiro. Tudo. Mas esse gesto de contar histórias impossíveis, qual é seu significado? Que botão apertei? E agora, não deixar pedra sobre pedra. Transformar o cotidiano em hipérbole, labirinto onde todos se perderão brincando despreocupadamente. A opacidade é quase banal. O jogo da vida e da morte é trivial. Despertemos a irascível criança que habita dentro de cada um de nós. Não há mistério. Que não se fale em loucura. O lado de lá, o lado de lá que caminha suavemente sobre suas sandálias de sola de borracha, o lado de lá disfarçado em arte plumária, o lado de lá que sorri afavelmente enquanto nos olha de soslaio, o lado de lá é simples e está aqui, basta estar aberto e disponível. Somos deuses.

by

Claudio Willer

Biografia

•02/03/2009 • Deixe um comentário
  


Escreverás meu nome com todas as letras, 
Com todas as datas 
- e não serei eu. 
  
Repetirás o que me ouviste, 
O que leste de mim, e mostrarás meu retrato 
- e nada disso serei eu. 
  
(...) 
  
Somos uma difícil unidade 
De muitos instantes mínimos 
- isso seria eu. 
  
Mil fragmentos somos, em jogo misterioso, 
Aproximamo-nos e afastamo-nos, eternamente 
- Como me poderão encontrar? 
  
Novos e antigos todos os dias, 
Transparentes e opacos, segundo o giro da luz 
- nós mesmos nos  procuramos. 
  
E por entre as circunstâncias fluímos, 
Leves e livres como a cascata pelas pedras.           
- Que metal nos poderia prender?
by
Cecilia Meireles

Pensar em ti

•01/31/2009 • Deixe um comentário


Pensar em ti é coisa delicada.

É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.
Um pesar grãos de nada em mínima balança
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.
Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.
Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.
by
Antonio Gedeão