Viagens através do espelho

•26/03/2009 • Deixe um comentário

 

Edgar Degas, in Bailarinas de Azul (1890) – Impressionismo

Por vezes, atrás de nós, há um ruído insistente. Vamos por uma rua, estamos sentados na gare dum aeroporto, num café pouco frequentado, acabámos de nos levantar do banco de um jardim numa cidade estrangeira onde nos encontramos absolutamente sós ou, então, numa taberna de uma pequena estância balnear que visitamos pela primeira vez.

O ruído pode ser o de uma ferramenta manejada por um operário desconhecido, um animal enclausurado que forceja por se escapulir, uma qualquer máquina de que jamais veremos os contornos, o assobio intermitente de uma sirene de oficina ou de embarcação. Mais raramente, gritos abafados – que não identificámos ou que não sabemos de onde vêm.

Quem se esqueceu, quem pode olvidar a sensação de surpresa, de estranheza, de arrepio que esse barulho, quebrando a naturalidade do fragmento de quotidiano, despertou em nós?

Frequentemente, os poemas de certos autores são também assim: arrastam, suspendem, distorcem por um breve instante o mundo em que nos fixáramos, no qual excursionávamos ou que nos preparávamos para ocupar. São inquietantes, nostálgicos, palpitantes e, se nos sugestionam como a súbita aparição de uma paisagem desconhecida mas reconhecível, também criam em nós uma espécie de encantamento provocado por misteriosos filtros ou poções de secreta proveniência.

E afinal, para maior maravilha, tudo se passa no quotidiano. Tudo se revela, existe, projecta e vive a partir desse dia-a-dia em que as pessoas viajam, deambulam e se relacionam como se o fizessem num universo penoso ou fecundado pela alegria. Um universo concreto, onde existem sombras e luz.

Depois, tudo começa a existir nos livros e em nós enquanto leitores: de repente os poemas passam a pertencer-nos, tal como as visões das maiores aventuras que eles transportam. E, mais e melhor, afinal somos donos dos livros, essas máquinas de imaginar que a cada instante traçam no espaço rotas intemporais. Como num sonho (melhor, na realidade) somos habitantes dum país encantado, porque também as palavras que formam os versos, matéria aparentemente volátil, passam a ser tão nossas como um coração, um braço, as artérias ou a mão alucinada com que erguemos os sinais tempestuosos.


by

Nicolau Saião

Epílogo

•20/03/2009 • Deixe um comentário

Fui
hóspede desta mansão
na encruzilhada
dos meus sentidos.

O verso apenas é,
transversal e findo,
o poleiro evocativo
da ave do meu canto.

Essa ave em que o Outono
se perfila
e, cada vez mais exígua
no rumo e nas vigílias
do seu bando,
de súbito, espirala
até sumir-se
num país imaginário.

by

Sebastião Alba

Pedra Filosofal

•15/03/2009 • 1 Comentário

Dancing blindly in the field of dreams - Original Painting by Jaime Best

Jaime Best

Eles não sabem que o sonho
e’ uma constante da vida

tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
e’ vinho, e’ espuma, e’ fermento,
bichinho a’lacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpetuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
e’ tela, e’ cor, e’ pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pina’culo de catedral,
contraponto, sinfonia,
mascara grega, magia,
que e’ retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que e’ Cabo da Boa Esperanca,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de danca,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
para-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do atomo, radar,
ultra-som, televisao,
desembarque em foguetão
na superficie lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos duma criança.

in “Movimento Perpétuo”, 1956

by

Antonio Gedeao

•13/03/2009 • Deixe um comentário

 

 

Rogério Silva, in série Vanitas
Rogério Silva, in série Vanitas

 

 

(…)
Multipliquei-me para me sentir
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.
by
Fernando Pessoa

 

 

Nada é para sempre.Mas a esperança é o meu pecado maior.

Silêncio

•12/03/2009 • 1 Comentário

Henry Fuseli

Henry Fuseli

Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios se emudecem.

 

by
Otavio Paz

(de Libertad bajo palabra, 1960 / traduzido por Luís Pignatelli e incluído em Antologia Poética, publicações Dom Quixote, 1984 – Poesia Século XX)

Jactância de quietude

•11/03/2009 • Deixe um comentário

 

 

 

Jordan Pond Path, Seal Harbor, ME, by Herbert Brown

Jordan Pond Path, Seal Harbor, ME, by Herbert Brown

,

Escrituras de luz embestem a sombra, mais prodigiosa que meteoros.
A alta cidade irreconhecível se faz violenta sobre o campo.
Seguro da minha vida e da minha morte, vejo aos ambiciosos e quisesse
entendê-los.
Seu dia é ávido como o laço no ar.
Sua noite é trégua da ira no ferro, pronto em acometer.
Falam de humanidade.
Minha humanidade está em sentir que somos vozes de uma mesma
penúria.
Falam de pátria.
Minha pátria é um palpitado de violão, uns retratos e uma velha
espada,
a oração evidente do salgueiro nos entardeceres.
O tempo está vivendo-me.
Mais silencioso que minha sombra, cruzo o tumulto da sua levantada
cobiça.
Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores do amanhã. Meu
nome é alguém e qualquer.
Seu verso é um requerimento de alheia admiração.
Eu solicito do meu verso que não me contradiga, e é muito.
Que não seja persistência de formosura, mas sim de certeza
espiritual.
Eu solicito do meu verso que os caminhos e a solidão o testemunhem.
Gostosamente ociosa a fé, passou beirando meu viver.
Passou com lentidão, como quem vem de tão longe que não espera
chegar.

 

by
Jorge Luis Borges

Finitude

•10/03/2009 • 1 Comentário

Salvador Dali
Salvador Dali
Senhor,permite que algo permanença,

alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte,nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?…….
by
Manuel Antonio Pina, 1924, Portugal

Balada do lado sem luz

•07/03/2009 • Deixe um comentário

O mundo da sombra, caverna escondida
Onde a luz da vida foi quase apagada
O mundo da sombra, região do escuro
Do coração duro, da alma abalada, abalada
Hoje eu canto a balada do lado sem luz
Subterrâneos gelados do eterno esperar
Pelo amor, pelo pão, pela libertação
Pela paz, pelo ar, pelo mar
Navegar, descobrir outro dia, outro sol
Hoje eu canto a balada do lado sem luz
A quem não foi permitido viver feliz e cantar
Como eu
Ouça aquele que vive do lado sem luz
O meu canto é a confirmação da promessa que diz
Que haverá esperança enquanto houver
Um canto mais feliz
Como eu gosto de cantar
Como eu prefiro cantar
Como eu costumo cantar
Como eu gosto de cantar
Quando não tão a balada, a balada, a balada

by

Gilberto Gil

O sono das águas

•28/02/2009 • Deixe um comentário


Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d¿água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir…
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes…
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono…

As palavras

•15/02/2009 • Deixe um comentário

 

 

 

Wassili Kandisnky

Wassili Kandisnky

“Agora só espero a despalavra: a palavra nascida
para o canto- desde os pássaros.
A palavra sem pronúncia, ágrafa.
Quero o som que ainda não deu liga.
Quero o som gotejante das violas de cocho.
A palavra que tenha um aroma cego.
Até antes do murmúrio.
Que fosse nem um risco de voz.
Que só mostrasse a cintilância dos escuros.
A palavra incapaz de ocupar o lugar de uma
imagem.
O antesmente verbal: a despalavra mesmo”.

                    (BARROS, Manoel de. Retrato do artista quando coisa)

 

“Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
Tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres.
Trouxeste a chave”?

                               (Carlos Drumond de Andrade)

Com a minha linguagem eu posso fazer tudo.Até, e principalmente, nao dizer nada.

Roland Barthes

Chegar lá

•13/02/2009 • Deixe um comentário
E agora quero a palavra reduzida ao simples gesto de agarrar alguma coisa, pura denotação, linguagem referência, mão estendida apontando para esses pedaços de realidade – ou então a festa com todos os seus fantasmas sentados no sofá de absinto enquanto sangram os dedos da memória, tudo verdadeiro no limite do que possa ser verdade, o caderno escrito de trás para diante e o livro lido a partir da última página, e também poderia falar das nuvens de vapor e cortinas de fumaça nos quartos, e narrar a história completa das febres tropicais – porém só nós dois fomos capazes de nos mover nesse plano intermediário em que realidade e sonho se confundem, tocados pela sugestão de outra cena ou situação. Essência, é esse o nome da nossa transação. Essência, essência! – grita a legião dos Irreais desde o bojo de sua existência provável. Essência, o verdadeiro nome do jogo de mutações. Desnecessário falar em alucinações – é como atravessar uma parede invisível, e já estamos lá. O texto febril. As luzes acesas. As luzes acesas. As luzes – acesas. Por exemplo – mas o número de exemplos é maior que toda a existência – por exemplo as luzes acesas, rebatidas meio cruamente pelos azulejos brancos iluminando nossos corpos enquanto nós nos preparávamos para começar mais um jogo amoroso. Lembro-me também das praias desertas, percorridas de ponta a ponta. Ou quando descobrimos aquela cachoeira no meio do mato, aquela cachoeira que devia ter uns 30 ou 50 metros de queda livre, seus respingos gelados nos alcançavam na margem, impossível chegar muito perto – aquela cachoeira descoberta no meio da mata nos induzia à cumplicidade. As luzes acesas. Cumplicidade. Essência. E aquele espelho antigo – aquele espelho antigo bisotado, patinado, recoberto pelo amarelo do tempo – aquele espelho antigo nos refletiu durante uma tarde. Estava na penteadeira diante da cama no quarto do casarão colonial de fazenda, com os demais móveis maciços e pesadões e o cheiro de pó, de coisa antiga do quarto. Também encontrávamos muitos santuários religiosos em nossas viagens, era como se nos impulsionasse uma atração magnética pelo sagrado. Certas tardes insuportavelmente quentes, abafadas demais. Houve um tempo em que. As luzes. Essência. Impregnando irremediavelmente tudo o que foi feito depois. Como a transgressão é quotidiana e imperceptível, como ser maldito é apenas uma espécie de indiferença, lassidão, o deixar-se levar. O cheiro de pó sobre os estofados. Eu quero que tudo fique muito claro. Não só as palavras, o texto, porém outro plano, agora definitivamente grudado ao real. Ficou um cheiro estranho, impregnando a pele. Tudo verdadeiro. Tudo. Mas esse gesto de contar histórias impossíveis, qual é seu significado? Que botão apertei? E agora, não deixar pedra sobre pedra. Transformar o cotidiano em hipérbole, labirinto onde todos se perderão brincando despreocupadamente. A opacidade é quase banal. O jogo da vida e da morte é trivial. Despertemos a irascível criança que habita dentro de cada um de nós. Não há mistério. Que não se fale em loucura. O lado de lá, o lado de lá que caminha suavemente sobre suas sandálias de sola de borracha, o lado de lá disfarçado em arte plumária, o lado de lá que sorri afavelmente enquanto nos olha de soslaio, o lado de lá é simples e está aqui, basta estar aberto e disponível. Somos deuses.

by

Claudio Willer

Biografia

•03/02/2009 • Deixe um comentário
  


Escreverás meu nome com todas as letras, 
Com todas as datas 
- e não serei eu. 
  
Repetirás o que me ouviste, 
O que leste de mim, e mostrarás meu retrato 
- e nada disso serei eu. 
  
(...) 
  
Somos uma difícil unidade 
De muitos instantes mínimos 
- isso seria eu. 
  
Mil fragmentos somos, em jogo misterioso, 
Aproximamo-nos e afastamo-nos, eternamente 
- Como me poderão encontrar? 
  
Novos e antigos todos os dias, 
Transparentes e opacos, segundo o giro da luz 
- nós mesmos nos  procuramos. 
  
E por entre as circunstâncias fluímos, 
Leves e livres como a cascata pelas pedras.           
- Que metal nos poderia prender?
by
Cecilia Meireles

Pensar em ti

•31/01/2009 • Deixe um comentário


Pensar em ti é coisa delicada.

É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.
Um pesar grãos de nada em mínima balança
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.
Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.
Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.
by
Antonio Gedeão

A noite bela

•25/01/2009 • Deixe um comentário

Starry Night, V.Gogh


Que canto levantou-se esta noite
que entretece
com o cristalino eco do coração
as estrelas

Que festa vernal
de coração em núpcias

Fui
um charco de trevas

Hoje mordo
como uma criança a teta
o espaço

Hoje estou bêbado
de universo.

by
Giuseppe Ungaretti

Alheamento

•16/01/2009 • Deixe um comentário

 

Estranha coisa esta, a poesia,

Que vai entornando mágoa nas horas

Como um orvalho de lágrimas, escorrendo dos vidros,

duma janela,

numa tarde vaga, vaga…

 

Fernando Namora (1919-1989), in Mar de Sargaços

Recordação

•12/01/2009 • Deixe um comentário

http://voirouregarder.typepad.com

 

Eu bem sei

Que rodo em muitas esferas,

            E não sei

Por onde me levas, poesia.

 

Quando vou,

E não encontro ninguém,

  Tenho medo do que sei:

   Um filho de sua mãe

E seu pai,

Ou algum longínquo avô,

   A quem um poeta sai.

 

Será também o Deus da infância

E a árvore sagrada

De frutos proibidos,

Na fragrância

  Com que rasguei meus vestidos

          E não retirei os ninhos…

 

Enchi de rosas a terra

        E levo nas mãos espinhos.

 

 by

Afonso Duarte (1884-1958)

Espírito de época

•11/01/2009 • 1 Comentário

 

 

Auguste Rodin, in A mão de Deus

Apesar de tudo amo a minha época porque é a época em que falta tudo

Dantes, o poeta existia para nomear as coisas: como se fosse a primeira vez, diziam-nos em crianças, como se fosse o dia da Criação. Hoje em dia ele parece existir para se despedir delas, para as recordar aos homens, terna e dolorosamente, antes que sejam extintas. Para escrever os seus nomes na água: talvez nessa mesma vaga que daí a pouco as arrastará consigo.

by

Cristina Campo

Cartas a um jovem poeta

•11/01/2009 • Deixe um comentário

 

Nunca, nem na morte, que é difícil, nem no amor, que também é difícil, aquele para quem a vida é uma coisa grave terá a ajuda de qualquer luz, de qualquer resposta já dada, de qualquer caminho de antemão traçado. Não há regras gerais para nenhum destes deveres que trazemos escondidos em nós e que transmitimos àqueles que nos seguem sem jamais os esclarecer. Na medida em que estamos sós, o amor e a morte tocam-se. As exigências dessa terrível empresa que é o amor através da nossa vida não são à medida dessa vida e jamais estaremos à altura de merecer o amor desde os primeiros passos. Mas se, à força de constância, consentirmos em suportá-lo como dura aprendizagem, em vez de nos dispersarmos em brinquedos fáceis e frívolos que permitem que os homens se furtem à gravidade da existência, talvez um progresso insensível, um certo alívio possa então resultar para aqueles que nos seguirem, muito tempo ainda depois da nossa morte[...]

by

Rainer M.Rilke

Fale com ela

•03/12/2008 • 1 Comentário

Salvador Dali, in Gradiva

O impossível entre homens e mulheres

Sylvia Loeb

 

Freud via as mulheres como enigmas de difícil resolução, não conseguia compreendê-las, comparava-as a um imenso continente africano, exótico, diferente, intangível.

Um dia, desanimado, perguntou-se: “O que quer uma mulher?” Questão à qual jamais logrou responder satisfatoriamente.

Almodóvar responde a essa questão no próprio título de seu último e extraordinário filme: “fale com ela”, diz Almodóvar a Freud, “fale com ela”.

Trata-se do último filme de Almodóvar. São quatro personagens paradigmáticos da paixão humana: dois homens e duas mulheres.

Um dos homens, cujo nome é Benigno, é enfermeiro e cuida com devoção absoluta primeiramente de sua mãe (que apenas aparece por uma fala no filme) e depois transfere esse zelo a uma jovem que fazia aula de dança em uma escola de balé em frente à sua casa e por quem se apaixona perdidamente. Essa jovem sofre um acidente gravíssimo e entra em coma, estado em que permanece por quatro anos. É onde encontramos Benigno.

O outro homem é um jornalista que fica vivamente interessado numa mulher que está sendo entrevistada na televisão. É uma toureira, que encarna com a maior beleza e dignidade a máscara da tragédia e da paixão. Essa mulher também entra em coma após um acidente gravíssimo na arena, onde se deixa atacar pelo touro bravio.

No início do filme, os dois homens que não se conhecem, estão lado a lado assistindo a uma apresentação de Pina Baush: duas mulheres tristíssimas, absolutamente solitárias, soltas e perdidas num palco/mundo mobiliado aleatoriamente de cadeiras, onde elas só não trombam pela ação desesperada de apenas um homem, igualmente triste e solitário que tenta abrir-lhes espaço. Mas trombam nas paredes, caem no chão…num movimento contínuo de…desesperança.

Pina Baush sabe pegar no âmago…

O jornalista se emociona, Benigno, o enfermeiro nota o vizinho.

Os dois homens reencontram-se tempos depois no hospital, Benigno cuidando da bailarina, em coma, o jornalista acompanhando a toureira, também em coma.

E vamos acompanhando cada vez mais fascinados o desdobrar do filme, o desdobrar da vida.

Almodóvar nos faz acompanhar por uma música maravilhosa, nos brinda com um Caetano Veloso no auge de sua sensibilidade e faz ressuscitar Elis Regina na alma da toureira.

E revela também, pela boca de Benigno, o desejo de toda mulher.

“A mulher precisa ser tocada, mimada, acariciada, você precisa falar com ela, ouvir seus segredos… fale com ela….”

No seu estado paradisíaco de indiferenciação sexual, na sua ingenuidade infantil, Benigno dedica-se de corpo e alma à adoração e aos cuidados daquela mulher viva/morta. Mais do que isso, Benigno realiza um dos sonhos mais secretos da mulher: o de ter um homem que se dedique inteiramente a ela.

E essa linda mulher em coma, realiza um dos sonhos mais secretos do homem: o de ter uma mulher absolutamente à sua mercê. Fantasias do inconsciente mais profundo de cada um de nós, homens e mulheres, fantasias essas às quais não temos mais acesso, mas que continuam a fermentar em nossas almas.

Almodóvar, grande artista que é, ilustra magistralmente e com muito humor a fantasia sexual infantil fundante do homem: o de ser inteiramente engolido, engolfado pela Grande Vagina da Mulher. Fascinação e medo desse imenso buraco negro, misterioso (o grande continente africano) que pode aterrorizar o homem para o resto de sua vida, minando uma relação de confiança com a mulher. Tudo em maiúsculo, em contraste com a figura minúscula do minúsculo homúnculo.

Difícil, mais tarde na vida, o homem poder, de fato, entregar-se à mulher…

Mas as coisas vão se complicando… assim como na vida…

As duas mulheres, em estado de coma profundo, parecem ser o paradigma do talvez absoluto e intransponível abismo entre o homem e a mulher. São dois mundos quase que radicalmente impossíveis um ao outro.

Quando a belíssima e trágica toureira se deixa matar, após ter reatado com seu grande amor, ficamos em estado de choque. Por que ela se deixou matar?

Em cenas anteriores, ela flertava com a morte, ela desafiava a morte.

Lá, no entanto, era mais fácil compreender, pois estava separada de seu homem. A vida já não tinha valor algum em comparação com a perda de seu amor.

Ela se deixa matar, porém, após o reatamento.

Só podemos compreender esse gesto como um ato de sacrifício ao amor.

Ela “sabia”, no mais recôndito de seu ser que amor algum vivido poderia corresponder ao profundo anseio de amor que sentia, realidade alguma poderia jamais corresponder à fantasia de gozo absoluto. Ela sabia que seu imenso e trágico amor estavam fadados ao insucesso, como os grandes e trágicos amores da literatura…e da vida…Romeu e sua Julieta, Tristão e sua Isolda, o louco Otelo com sua trágica Desdêmona… Só a também louca Suzane Louise não sabia disso…

O que Almodóvar nos conta é a grande história de amor impossível entre homens e mulheres, é o grande manual de decifração das mulheres, é a impossibilidade, a mais radical e absoluta, do encontro desejado, perene e permanente.

E é também uma ode à vida quando recoloca frente a frente um homem e uma mulher recomeçando uma vez mais e sempre, a recriação do mundo.

A vida chama, e o amor é a única e impossível saída.

 

 

Sylvia Loeb é psicanalista

Contrastes

•02/12/2008 • Deixe um comentário

Mario Zampedroni, in Abstract Floral ( Italy)

Tudo são contrastes agrestes e vivos. Ou a alegria exfusiante ou a angústia espantada. Ou as cores arrogantes das saias e das blusas, das camisas e das ceroulas, ou o negro cerrado dos lutos profundos. (…) Ou o alarido bizarro duma multidão a exultar ou o silêncio cerrado que só o mar acorda, como a lembrar que é ali que está o pão e a morte.”

by

Alves Redol