UM HOMEM PASSA COM UM PÃO AO OMBRO

Marc Chagall, in Le Branche
Um homem passa com um pão ao ombro
– Vou escrever, depois, sobre o meu duplo?
Outro senta-se, coça-se, tira um piolho do sovaco, mata-o
– Com que desplante falar da Psicanálise?
Outro entrou em meu peito com um pau na mão
– Falar, em seguida, de Sócrates ao médico?
Um coxo passa dando o braço a um menino
– Vou, depois, ler André Breton?
Outro treme de frio, tosse, cospe sangue
– Convirá não aludir jamais ao Eu profundo?
Outro busca no lodo ossos e cascas
– Como escrever, depois, sobre o infinito?
Um pereiro cai de um telhado, morre, já não almoça
– Inovar, em seguida, a metáfora, o tropo?
Um comerciante rouba um grama no peso a um freguês
– Falar, depois, da quarta dimensão?
Um banqueiro falsifica o seu balanço
– Com que cara chorar no teatro?
Um pária dorme com um pé às costas
– Falar, depois, a ninguém de Picasso?
Alguém vai num enterro a soluçar
– Como em seguida ingressar na Academia?
Alguém limpa uma espingarda na cozinha
– Com que desplante falar do mais além?
Alguém passa a contar pelos dedos
– Como falar do não-eu sem dar um grito?
by
César Vallejo
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~ por rosana em 19/07/2008.

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