Painel

Gustave Doré, in Paradise Lost

Ora uma noite de luar medonho

(lembro-me disto como dum sonho)

Alevantou-se um Homem a meu lado,

Todo nu, e desfigurado.

Mal me atrevendo a olhá-lo, eu quase só adivinhava

Seu corpo devastado que sangrava…

E uma lembrança, longe, longe, havia em mim

De já o ter amado, ou outro assim.

Seu rosto, que, decerto, era sereno e puro,

Resplandecia, como um mármore, no escuro;

E as suas lágrimas, rolando devagar,

Deixavam rastros que faziam luar…

Eu prosseguia, todo trémulo e confuso,

Cheio de amor e de terror por esse intruso.

À minha mão direita, ele avançava aèreamente,

Com seu ar espectral e transcendente…

Os seus pés nem pousavam no caminho;

E então, eu desatei a soluçar baixinho,

Porque notara que em seu rosto exangue

As suas lágrimas corriam misturadas com seu sangue.

Oh, onde a vira eu, essa figura peregrina

Feita de terra humana e de ascensão divina?

Sim, onde a vira eu, que, só de o perguntar,

Me arrepiava, com vertigens de ajoelhar?

Mas, de repente, como um sobressalto,

E como a angústia de quem rola de muito alto,

Alguma coisa em mim passou, que pressentia,

E que se arrepelava, e que tremia…

É que em meu ombro esquerdo alguém se debruçava,

Alguém que ria um riso que espantava,

Um riso tenebroso, e cheio de atracção,

Com fogo dentro como a boca dum vulcão!

E, sem o ver, eu via-o todo inteiro,

Essoutro novo e inseparável companheiro:

Um que também conheço, nem sei donde nem de quando,

Por mais que me torture procurando…

E tinha pés de cabra, e tinha chifres, tinha pêlos,

E tinha olhos sulfúricos, esfíngicos e belos…

A baba do seu riso escorregava-lhe da boca,

E em todo ele ardia uma lascívia louca!

À minha mão direita, absorto, aéreo, hirto,

Coroado de abrolhos e de mirto,

O Outro continuava a chorar lágrimas caladas,

Com as mãos lassas como rosas desfloradas…

Entre os dois, eu sentia-me pequeno e miserando,

Vibrando todo, tumultuando, soluçando,

Com olhos meigos, lábios torpes – indeciso

Entre um inferno e um paraíso!

Um riso doido e cínico, sem regra,

Subia em mim como uma onda negra,

E, estrelados de lágrimas, meus olhos inocentes

Ajoelhavam como penitentes…

Entretanto, os dois vultos desmedidos

Iam crescendo entre os meus risos e gemidos,

Crescendo sempre, sempre e tanto, que, depois,

Eu ficava esmagado entre eles dois.

A noite em que isto foi, não sei…, sei lá?… (Seria

Essa em que minha Mãe, com tanta angústia, me paria…)

Sei que o luar era medonho, era amarelo,

E que tudo isto me parece um pesadelo!

by
José Régio, in Poemas de Deus e do Diabo

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~ por rosana em 30/11/2009.

3 Respostas to “Painel”

  1. !Rosana!A poesia da Anna Montenegro me tocou lá no fundo.Reverbera nas minhas grutas.Pura arte; joia, feita de palavras.

  2. Esta poesia me encheu os olhos com agua salgada.Chorei,o que nao acontecia ha muito tempo.Muito obrigado .Pensei que lia Dante,o que nunca fiz.

  3. cresci com desenhos do Doré desde minha infânca em todos os textos de estudo sobre Dante e sua Divina Comédia. Rabelais ficou com ciúme, e Balzac revirou-se no túmulo, mas Rubens Saboya, exîmio escultor que é, conseguiu dar à ilustração de Dorê, uma transformação em palavras, com sonoridade. Quem escolheu aquela ilustração para evidenciar o texto o fez seguramente com esse intúito e Rubens lhe carimbou o sucesso.

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